O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, de forma unânime, que é inconstitucional a cobrança do Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCMD) sobre valores depositados em planos de previdência privada, como VGBL e PGBL, repassados aos beneficiários após o falecimento do titular. Essa decisão, além de trazer segurança jurídica, impactará diretamente a forma como heranças envolvendo esses recursos serão tratadas no Brasil.
O Que é o ITCMD?
O ITCMD é um imposto estadual que incide sobre a transmissão de bens ou direitos em duas situações principais:
1. Causa Mortis – Quando ocorre o falecimento do titular e o patrimônio é transferido aos herdeiros no processo de sucessão.
2. Doação – Quando há transferência de bens ou valores entre vivos, sem contrapartida financeira.
Apesar de sua previsão na Constituição Federal, a regulamentação do ITCMD é feita individualmente por cada estado. Isso significa que as alíquotas e detalhes sobre a cobrança variam entre as unidades federativas, o que frequentemente gera disputas judiciais sobre a incidência do imposto em casos mais complexos, como planos de previdência privada.
A Decisão do STF
No caso em questão, o estado do Rio de Janeiro buscava garantir a aplicação do ITCMD sobre valores de planos de previdência privada repassados aos beneficiários. Entretanto, o STF rejeitou o recurso estadual, afirmando que tais valores não configuram herança no sentido clássico do direito sucessório.
O ministro Dias Toffoli, relator do caso, destacou que o direito dos beneficiários surge a partir de um vínculo contratual estabelecido em vida pelo titular do plano, e não de uma transmissão sucessória propriamente dita. Nas palavras do ministro:
“Não existe transmissão causa mortis própria do direito sucessório, sendo certo que o direito dos beneficiários surge em razão de vínculo contratual.”
Por Que Isso é Relevante?
A decisão do STF tem grande relevância prática e jurídica por estabelecer um entendimento uniforme em todo o país. Isso ocorre porque os ministros aprovaram uma tese com repercussão geral, ou seja, o entendimento deverá ser aplicado a todos os casos semelhantes em tramitação no Judiciário brasileiro.
Na prática, isso impede que estados cobrem ITCMD sobre os valores acumulados em planos de previdência privada como VGBL e PGBL, quando transferidos aos beneficiários. Essa distinção é importante porque reforça a natureza contratual dos planos de previdência, em que os beneficiários recebem os valores por direito próprio, conforme estipulado no contrato firmado em vida pelo titular.
Impactos da Decisão
A decisão traz uma série de implicações:
• Segurança Jurídica: Beneficiários de planos de previdência privada não precisarão se preocupar com a cobrança do ITCMD sobre esses valores.
• Redução de Controvérsias: Estados não poderão questionar judicialmente a incidência do imposto em situações semelhantes, reduzindo litígios na área.
• Planejamento Sucessório: A previdência privada ganha ainda mais relevância como instrumento para proteger o patrimônio e garantir a transferência de recursos aos herdeiros de forma eficiente e livre de impostos sucessórios.
Conclusão
Com essa decisão, o STF reafirma a importância de respeitar os limites da tributação e traz mais clareza para contribuintes e beneficiários de planos de previdência privada. Além disso, a tese aprovada consolida o entendimento de que valores repassados por meio desses planos não se confundem com o patrimônio transferido via herança tradicional, tendo origem em um contrato celebrado em vida pelo titular.
Essa é uma vitória para os beneficiários, que passam a contar com mais previsibilidade na transferência de recursos, e para o sistema jurídico, que fortalece a uniformidade no tratamento de questões tributárias e sucessórias.
Por: Dr. Marco Adriano Marchiori